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Manifesto pela Vida no Balcão: no Dia Internacional da Mulher, nenhuma farmacêutica a mais deve morrer
Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher. E eu escrevo este texto com o coração apertado, sabendo que, em vez de celebrar, estamos de luto. Em vez de flores, levamos velas. Em vez de homenagens a carreiras inspiradoras, enterramos colegas que foram trabalhar e não voltaram.
Karina Aparecida Ribeiro de Souza, 38 anos, farmacêutica. Morta em 28 de fevereiro de 2026, durante um assalto em Santana, Zona Norte de São Paulo. Um policial civil de folga reagiu ao crime, houve troca de tiros, e Karina — que estava ali para atender, orientar, cuidar — foi atingida e não resistiu. Fonte: CFF (01/03/2026).
Este não é um texto comemorativo. É um manifesto. Porque, neste 8 de março, a pergunta que não quer calar é: quantas mulheres farmacêuticas precisam morrer para que a sociedade entenda que o balcão de drogaria virou linha de frente?

A realidade nua: quando o stories encontra a vida real
Há poucos dias, compartilhei um post do Sindicato dos Farmacêuticos de São Paulo no meu stories. A frase era simples, direta, urgente: “Queremos trabalhar com segurança! Nenhuma farmacêutica deve morrer no local de trabalho.”
Uma colega curtiu. E comentou: “Nossa loja, próxima a Santa Terezinha, foi assaltada agora a pouco! Estamos cansados e com medo!”
Esse comentário não é isolado. É o retrato de uma categoria que vive sob tensão permanente. Enquanto eu escrevo, farmacêuticas em toda a cidade estão atrás de balcões que podem ser invadidos a qualquer momento. Estão em lojas com equipes reduzidas, portas abertas, estoques visados. Estão — como Karina estava — no lugar errado, na hora errada, em um sistema que não as protege.
O que as estatísticas mostram — e o que elas escondem
Os números são frios, mas revelam um cenário aterrorizante:
- 206 assaltos a farmácias na capital paulista entre janeiro e setembro de 2025 — aumento de 20% em relação ao mesmo período de 2024. Fonte: CFF (01/03/2026).
- Uma rede relatou 15 assaltos em oito lojas em um único mês.
- Em alguns casos, criminosos voltam à mesma farmácia antes mesmo do estoque ser reposto.
- Um assaltante chegou a perguntar, ironicamente, se as “canetas emagrecedoras” que ele levou duas semanas antes já tinham sido repostas.
O que esses números não mostram:
- o medo de abrir a porta do estoque;
- o pânico de ouvir passos mais rápidos à noite;
- a angústia de trabalhar sozinha em horários de risco;
- o trauma de sobreviver a um assalto e ter que voltar no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido.

“Canetas emagrecedoras”: quando saúde vira moeda de crime
Parte dessa escalada tem nome: agonistas do receptor de GLP-1. Medicamentos como Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida), usados no tratamento de diabetes tipo 2 e, em alguns casos, para controle de peso, sempre com indicação e acompanhamento médico.
O problema não é o medicamento existir. O problema é o que acontece quando um produto de saúde reúne:
- alto valor de revenda (muito dinheiro em pouco volume);
- procura intensa e contínua;
- oferta limitada e oscilante.
Esse combo atrai organizações criminosas. A farmácia, que deveria ser ponto de cuidado, vira ponto de “entrega” involuntária. E quem está no balcão — majoritariamente mulheres — vira obstáculo entre o crime e o produto.

O papel dos Conselhos de Farmácia: defender a categoria é defender vidas
Aqui é preciso falar claro: os Conselhos de Farmácia — Federal e Regionais — têm atribuição legal e ética para intervir em defesa da segurança do farmacêutico.
O Conselho Federal de Farmácia (CFF), criado pela Lei Federal nº 3.820/1960, tem como função primordial normatizar o exercício da profissão farmacêutica no Brasil. Os Conselhos Regionais (CRFs) fiscalizam esse exercício, garantindo que seja ético, seguro e em conformidade com a legislação. Fonte: CRF-SE.
A Resolução CFF nº 724/2022, que aprova o Código de Ética Farmacêutica, estabelece os direitos, deveres e proibições para os profissionais. E, entre as atribuições reconhecidas pelo CFF, está a Segurança no Trabalho como especialidade farmacêutica — o que significa que o farmacêutico pode e deve atuar na prevenção de riscos ocupacionais, inclusive em drogarias. Fonte: CRF-CE.
Isso significa que:
- O CFF e os CRFs têm competência para cobrar condições seguras de trabalho nos estabelecimentos farmacêuticos.
- A fiscalização não se limita à presença do profissional — ela abrange as condições em que o exercício profissional ocorre.
- Defender a categoria também significa defender quem está no balcão de ser tratado como “custo operacional” aceitável.
O CRF-SP já se manifestou sobre o caso de Karina, expressando solidariedade aos familiares e colegas. Mas solidariedade, sozinha, não basta. É preciso transformar indignação em ação institucional: cobrar medidas efetivas, pressionar empresas e poder público, e garantir que a segurança do farmacêutico seja tratada como questão de saúde pública, não apenas de segurança privada.
Mulheres farmacêuticas: a face invisível da violência no trabalho
Neste Dia Internacional da Mulher, é impossível ignorar: a maioria dos profissionais que trabalham em drogarias é mulher. São elas que:
- atendem a população em todos os horários;
- ficam sozinhas em turnos noturnos;
- enfrentam clientes agressivos, situações de risco, assaltos recorrentes;
- carregam, além do peso profissional, o peso de serem vistas como “presas fáceis” por criminosos.
Karina era uma dessas mulheres. Tinha 38 anos. Uma vida inteira pela frente. Estava trabalhando. Não era policial. Não era segurança. Era farmacêutica. E morreu porque o Estado, as empresas e a sociedade não garantiram o básico: um ambiente de trabalho seguro.
No dia 27 de fevereiro, um dia antes da tragédia em Santana, outra farmacêutica foi baleada na cabeça durante um assalto em Ananindeua, no Pará. Sobreviveu. Mas a pergunta permanece: quantas precisam ser atingidas para que algo mude?
A periculosidade virou característica da profissão?
Este manifesto afirma, com todas as letras: não deveria ser.
Periculosidade é atributo de profissão quando o risco está no ato profissional em si. O ato farmacêutico, por definição, é cuidado: orientar, dispensar, acompanhar, promover o uso racional de medicamentos. A violência não faz parte disso.
Mas a realidade está impondo outro contrato social: o de que trabalhar em drogaria significa também gerenciar medo, calcular rotas de fuga, identificar sinais de ameaça, conviver com a possibilidade de arma apontada.
Quando isso se naturaliza, acontece o pior tipo de derrota: a derrota silenciosa. A aceitação de que:
- o profissional “já entra sabendo” que pode ser assaltado;
- a família “se acostuma” com a tensão do plantão;
- o setor “internaliza” a rotatividade e o adoecimento;
- a sociedade “segue” até a próxima manchete.
Isso não é normal. E não pode virar característica definidora da profissão.
O que cobrar de empresas, do poder público e dos Conselhos
Este manifesto também é um chamado à responsabilidade:
Das empresas:
- Vigilância armada e sistemas de monitoramento avançado.
- Treinamento de equipes para situações de risco.
- Equipes mínimas em todos os turnos — nunca um profissional sozinho.
- Parcerias com forças de segurança locais.
- Suporte psicológico após incidentes.
Do poder público:
- Investigação e desarticulação de quadrilhas especializadas em roubos de medicamentos.
- Combate ao mercado ilegal e à receptação.
- Políticas de segurança específicas para estabelecimentos de saúde.
- Reconhecimento formal da periculosidade, quando aplicável.
Dos Conselhos de Farmácia (CFF e CRFs):
- Cobrança institucional por condições seguras de trabalho nos estabelecimentos fiscalizados.
- Posicionamento firme e público sobre a segurança do farmacêutico como questão de saúde pública.
- Articulação com sindicatos, empresas e poder público para medidas efetivas.
- Garantia de que a fiscalização do exercício profissional inclua a verificação de condições mínimas de segurança.

Manifesto pela Vida no Balcão: neste 8 de março, a homenagem que Karina merece
Karina Aparecida Ribeiro de Souza não pode ser apenas uma estatística. Não pode ser apenas uma manchete que passou. Não pode ser apenas um nome em uma nota de pesar.
A homenagem que ela merece é viva: é a mudança.
É que, no próximo Dia Internacional da Mulher, possamos celebrar carreiras, conquistas, avanços — e não enterrar colegas. É que nenhuma farmacêutica precise escolher entre seu emprego e sua segurança. É que o balcão de drogaria volte a ser o que sempre deveria ter sido: lugar de cuidado, não de medo.
Farmácia é lugar de saúde. Farmacêutica não é alvo.
E, neste 8 de março, a melhor homenagem que podemos fazer a Karina — e a todas as mulheres que trabalham atrás de balcões — é lutar para que nenhuma outra precise morrer trabalhando.
Andréa Martins
@farmacianapratica







